Itaparica, uma ilha deserta

Por Ernesto Britto Ribeiro
 
“Itaparica, ilha bonita, morena n’areia, o sol a me queimar”. Com as lembranças de outrora e versos românticos que retratam sua beleza natural e poética, a Ilha de Itaparica vive, hoje, triste a lembrar-se de seu passado de glórias.

Itaparica é, hoje, uma ilha deserta. Digo deserta de políticas de desenvolvimento. Dividida em dois municípios, Itaparica e Vera Cruz, a ilha é mal administrada tanto de um lado como do outro. Sempre suja, com ruas esburacadas, cidades maltrapilhas. Os serviços de saúde são um Deus nos acuda.

Com tudo isso e paradoxalmente, a Ilha é um paraíso para quem a ama, como os seus moradores, nativos e veranistas. Os moradores não trocam aquilo por nada. A tranquilidade, a proximidade com o mar, as mangas maravilhosas, sejam espada, carlota ou coração magoado. Os cajus, cada vez mais raros, são uma delícia a parte. A vidinha deliciosa de quem mora em cidade pequena a beira mar é algo difícil de explicar. Para o morador, ele não está em Salvador, e isso basta. Mas ao mesmo tempo, se pegar a lanchinha de Mar Grande, chega à Capital em 50 minutos. Já para os nativos, ou seja, para quem lá nasceu, voltar à Ilha, nem que seja uma vez por ano, é retornar ao lar, rever os amigos, recarregar as baterias. “A Ilha me chama”, dizem muitos. E para os veranistas, agora chamados de turistas de segunda residência, a Ilha é outra história. Para quem não sabe, o mercado imobiliário adotou essa terminologia para chamar veranistas de turistas. Discordo. O turista tem outra postura no destino, consome muito, quer conhecer os atrativos, vive intensamente os poucos dias que fica no lugar. O veranista deseja ficar em casa, curtir o lar provisório, cuidar da casa, leva quase tudo que precisa dentro do carro e consome pouco no destino. Voltando ao tema, os veranistas de Itaparica amam aquele lugar há décadas e décadas. As famílias são amigas de muitas gerações. Acompanham os nascimentos, o crescimento das famílias vizinhas, sofrem na ausência dos mais velhos. Os veranistas da Ilha são apaixonados por ela. Ali as crianças fazem amizades, aprendem a falar mais rápido, andar de bicicleta, cair de bicicleta, cair da ponte, se ralar no cais. As crianças veranistas vivem meses de sonho. Os adolescentes experimentam seus primeiros beijos, namoram muito, fazem amizades para sempre. Os adultos veranistas ficam tristes quando não vão à ilha. Lá relaxam das pressões do trabalho, da cidade grande, dos engarrafamentos, das formalidades profissionais. Os idosos veranistas só deixam de ir quando vão ao encontro do Pai.

Mas, ainda assim, como eu dizia no inicio desse artigo, a Ilha é um deserto de políticas de desenvolvimento. Políticas estaduais não existem na Ilha há muitos anos. Os governos deixaram a Ilha à sua própria sorte. O Sistema Ferry Boat é um exemplo disso. Foi largado até chegar ao caos. O trabalho na ilha é sub emprego. A saúde pública é falida. A segurança é particular, paga pelos veranistas quando lá estão para poder ficar nas ruas até um pouco mais tarde. O crack manda nos jovens desocupados. Os governos esperam. As prefeituras são ocupadas por pessoas sem preparo para os desafios, sejam moradores ou forasteiros. Desenvolvimento turístico planejado, nem pensar.

Agora vem a história da ponte. Para quem se ilude, a ponte não vem para desenvolver a Ilha de Itaparica. É a ponte da Bahia ou da Baia, só não é a Ponte de Itaparica. Ela vem para ligar a Capital ao sul do estado, uma necessária saída para Salvador, passando pela Ilha. Será que vão se lembrar de prever os impactos na Ilha e promover seu desenvolvimento sustentável? Será que dessa vez ela será lembrada?


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Editorial, 13.DEZEMBRO.2013 | Postado em Geral
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