Ilhéus como destino turístico

Depois de muitos anos trabalhando com turismo tenho ficado cada vez mais intrigado como os problemas apontados pelo empresariado permanecem sendo os mesmos há muito tempo, desde os meus tempos de professor da Factur até hoje. Nesses últimos dias, passando uma semana em Ilhéus, lembrei-me de muitas dessas queixas antigas e permanentes e, como cliente de hotéis, companhias aéreas, restaurantes e taxis, tenho analisado aspectos dos estabelecimentos que ajudam a aumentar os problemas.

Para começar, a queixa eterna é sobre a qualidade da mão de obra disponível para as empresas de turismo. Os empresários reclamam que os funcionários não possuem padrão de qualidade mínima e que vivem pulando de um emprego para outro, e assim não vale a pena direcionar recursos para qualificação. De outro lado, as instituições de fomento reclamam que os próprios empresários não liberam os empregados para os cursos oferecidos, e eles mesmos, os donos dos negócios, não se preocupam em se qualificar para gerir melhor seus empreendimentos. É só tornar-se cliente para perceber que isso é a mais pura e dolorosa verdade.

O resultado são serviços cada vez mais inaceitavelmente ruins, depois de anos e anos de reclamações e qualificações com recursos públicos e privados nesses setores. Esta semana eu fiquei cinco horas no aeroporto de Salvador aguardando um voo da Trip para Ilhéus, que atrasou quatro horas. Na semana passada fiquei uma hora e meia, dentro de uma aeronave da mesma companhia, aguardando autorização da torre para fechar a porta e decolar em direção a Maceió. O piloto disse que não tinha palavras para pedir desculpas e que o atraso foi por uma falha da empresa. E a empresa não é formada por gente?

Outra queixa antiga é quanto à baixa estação, quase fatal para alguns empreendimentos turísticos, que se vêm completamente vazios em longos meses a cada ano. Esse é considerado o pai de todos os problemas. Realmente, destinos que possuem o sol e a praia como motivação principal sofrem muito com os períodos de baixa estação, sobretudo no inverno, que chove muito aqui na Bahia, apesar de não fazer frio. Mesmo sendo um problema antigo e poderoso, a baixa estação pode ser trabalhada com outros produtos e para outros públicos, pelo menos para acalmar a sua fúria, mas confesso que não vejo movimento consistente de busca, análise e escolha de alternativas. Uma cidade como Ilhéus, com a fama e a estrutura de meios de hospedagem que já possui, poderia ser mais atrativa para pequenas férias e feriados dos próprios baianos, mas possui muito poucas opções de lazer fora da praia e serviços de qualidade muito simples, que durante a alta estação são disfarçados pelo rei sol, mas na época das vacas magras sobressaem aos olhos.

Esse não é um problema somente de Ilhéus, mas ocorre também em outros destinos, que se vêm lotados na alta estação e reclamam o resto do ano da falta de movimento. Mas como estou na terra de Gabriela, as questões daqui se apresentam em minha mente. Alguém pode me dizer o que Ilhéus oferece durante o resto do ano para atrair visitantes? Sua gastronomia nem se compara com localidades como Valença, Itacaré, Morro de São Paulo, Praia do Forte, Porto Seguro, Prado, Paulo Afonso e outras cidades até menos famosas. Alternativas culturais devem existir, mas não são suficientemente divulgadas. As fazendas de cacau que recebem para visitação também estão desconectadas dos hotéis e pousadas, restaurantes e taxis. Há uns dois anos eu fiz um passeio maravilhoso em uma fazenda de cacau, além da própria Ceplac, que promove visitas guiadas de boa qualidade, mas isso precisa ser comercial, senão o visitante nem fica sabendo. Por aqui os taxis são velhos, o aeroporto é quase uma estação de ônibus, os restaurantes são lentos e os banheiros, sujos. Ai é russo conseguir clientes quando o sol não ajuda. É melhor viver de romance mesmo.


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Editorial, 14.ABRIL.2014 | Postado em Geral
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